Servidor Público nas horas não-vagas, escritor nas vagas e mochileiro nas horas felizes. Formado em Relações Internacionais na Universidade de Brasília, Claudiomar ainda procura algo pra utilizar os seus conhecimentos adquiridos na graduação. Devido a este fato viaja e escreve análises socio-economicas sobre o Brasil e pelos locais que passa. Enquanto não viaja, destila toda a sua pseudo-intelectualidade sobre política nacional
A quatro mil metros de altura se distinguem os homens dos meninos pelo cheiro. Ou, basicamente, pela coragem de tomar banho gelado ou não quando o frio lá fora é negativo. Bem, eu sou menino e deixo isso bem claro.
Depois de visitarmos algumas lagoas perdidas nos Andes Bolivianos, fomos nos hospedar em um hotel de sal. Sim, a estrutura do hotel era toda de sal e, lógico, todo mundo quando chega, a primeira coisa que faz é dar com a língua na parede para saber se ela é salgada. Sim, ela é salgada. Bem salgada. Esse hotel de sal era um pouco melhor que a espelunca que ficamos hospedados na noite passada, inclusive havia disponibilidade de banhar em um chuveiro quente por 5 reais. Estava dividindo o quarto com outros três franceses. Franceses, bom reiterar. Estava na cama, deitado, acabado, morrendo de sono, pois não tinha conseguido dormir direito na noite passada e não conseguia levantar um dedo do pé. Quando eu estava pegando no sono, a luz do quarto se acende e entra o primeiro francês de cabelo molhado no quarto. Alguns minutos depois, entra o segundo de cabelo molhado. Quando entra o terceiro francês de cabelo molhado, ele olha para mim e fala: – Claudio, o banho quente aqui é muito bom. Você devia experimentar. Pausa constrangedora. Ele olha no fundo dos meus olhos e diz, com uma sinceridade avassaladora: – Mas, devia experimentar mesmo, Claudio! Segui para o chuveiro. Não há sono que sustente a vergonha de um francês te mandar tomar banho.
O Salar de Uyuni é a maior planície de sal do mundo. Contém quase 70% de toda reserva mundial de lítio, material utilizado na confecção de baterias de celulares. Ele é tão grande e tão branco que é utilizado para calibrar satélites de observação da terra. É realmente um lugar muito impressionante e, de longe, um dos lugares mais interessantes que já pude viajar em toda minha vida. O salar na verdade era um imenso lago com quase 11.000 km² de área o que naquela época era o maior lago de altitude do mundo (o Titicaca tem 8.500 km²). Porém, com o passar dos anos ele foi evaporando e secando, deixando apenas a imensidão salgada do seu chão.
Imensidão branca
“Ilha” no Salar de Uyuni
Ainda hoje alguns lugares ficam alagados, porém como fui na região seca (inclusive a melhor época para se visitar, que vai de abril a novembro, apesar de ser a mais gelada) todo a região do lago transforma-se em um imenso deserto de sal. Interessante que também há algumas pequenas elevações que são chamadas de ilhas, onde há seus cactos quase 10 metros de altura. Não é só no sentido figurativo não, os lugares realmente parecem ilhas emergindo no meio daquela imensidão branca, gélida e desértica.
Ainda quando estávamos no hotel de sal (que como falei é feito com os blocos de sal extraídos do Salar) houve uma votação para saber se deveríamos sair duas horas mais cedo para poder pegar o nascer do sol no Salar ou não. Mano, eu acho esses passeios a maior roubada. Nascer do sol para mim é sempre o mesmo, seja no Salar de Uyuni, seja em Cubatão ou Teresina, além de que você tem que acordar de madrugada o que nunca me atrai. Ainda por cima estava extremamente cansado por ter ficado o dia peruando de um lugar para o outro e ter dormido mal no alojamento siberiano da noite anterior, portanto realmente queria descansar. Acabou ocorrendo uma votação onde houve a polarização entre os gringos e os sul-americanos (eu e um casal de chilenos) que nos levou a derrota já que estávamos em menor número. Gringo como só vê sol umas cinco vezes por ano adora ver nascer do sol. Tivemos que acordar de madrugada. Foi até engraçado, pois eu e os chilenos acordamos cedo e os gringos acabaram perdendo o horário. Acabou que só eu e os chilenos vimos esses nascer do sol. É… a vida é irônica.
Nascer do sol na imensidão branca do Salar de Uyuni
Gente, esse meu visú tava muito legal. Tava muito ridículo, mas o mais importante era ficar quente…
No caminho do Salar de Uyuni, ainda de madrugada, foi muito legal. Cara, o deserto é tão grande e tão vasto, que o guia simplesmente mirou em um pontinho lááááá no final onde havia umas luzinhas e foi indo, indo, indo… o tempo todo com o farol desligado. Se não fosse o barulho do motor e do vento batendo nos vidros, teríamos a impressão de que o carro estava parado, já que tudo era branco e não havia nada ao nosso lado, só as estrelas no céu. É, o nascer do sol não foi nada de mais (nascer do sol é o mesmo em qualquer canto), mas o caminho até a ilha valeu ter acordado de madrugada. Ponto para os gringos dorminhocos.
Num lugar como esse, avistar um sinal de internet é realmente como achar um pote de ouro. Sim, é lógico que também custava um pote de ouro para usar essa internet =(
No final, depois de ver o nascer do sol, a gente desceu para um ponto no meio do nada do deserto para batermos as famosas fotos em perspectiva. Como o deserto é imenso e plano, você fica sem referencial e há o ambiente perfeito para bater fotos em perspectiva. Com uma rápida busca na internet você acha várias engraçadas já feita pela galera.
A minha foram essas
E sim, o chão é todo de sal mesmo. Você sai chutando os pedregulhos e colocando na boca e eles realmente são de sal. Cara, é muito legal.
Porém, depois do Salar de Uyuni em si, o mais interessante e legal mesmo, sem sombra de dúvidas, são as lagunas e suas diversas cores. Há diversas lagoas de coloração branca, verde e, a mais impressionante, uma lagoa cor-de-rosa. Não sei se o mais impressionante dessa laguna era a cor dela ou o fato dela ser povoada por centenas de flamingos.
Flamingos!
Malditos flamingos! Como eles conseguem viver tão bem aqui? A quase 4.000 metros de altitude?
Mais flamingos!
Cara, é impressionante, você tá ali tremendo de frio e do vento, tonto por causa da altitude e os flamingos de boa na lagoa como se estivessem em um mangue na beira do mar curtindo na maior tranquilidade sem se tremer. Isso com aqueles aquelas pernas da finura de um graveto e sem gordura nenhuma no corpo para sustentar o frio. Caramba, como pode haver flamingos no Pantanal e outros iguaizinhos em um ambiente tão diverso?
No fim do segundo dia dormimos em um hotel de sal. Sim, o chão é de sal, as paredes são de sal, as camas são sustentadas em um bloco de sal. Todo mundo quando chega fica passando a língua nas paredes para ter certeza que são de sal.
Montanhas coloridas
Sim, elas são bem salgadas, experiência própria. O hotel de sal é em um lugar mais baixo, menos frio e tem uma infraestrutura simples, porém boa. Um hotel de cinco estrelas comparado com o outro.
Quando estávamos para chegar no hotel de sal nos falaram que lá, enfim, iríamos ter acesso a eletricidade depois de dois dias sem e assim poderíamos carregar nossos celulares. Só esqueceram de nos falar que o hotel iria estar apinhado de coreanos e seus aparelhos eletrônicos. É lógico que não sobrou tomada para ninguém.Hall do hotel de sal
Quando eu escrevo Salar de Uyuni ou passeio do Salar de Uyuni, entendam como a mesma coisa. Na verdade o passeio ao todo são três dias e duas noites e nos adentramos em dois Parques Nacionais da Bolívia os quais não lembro o nome. Visitamos vários lugares que também não guardei os nomes, mas que o mais importante é ver as fotos. O Passeio do Salar de Uyuni pode ser iniciado do Chile em direção a Bolívia e vice-e-versa, sendo que começando o passeio por São Paulo de Atacama custa bem mais caro que fazer pela Bolívia. Se você começar no Chile eles vão te deixar na Bolívia e vice-e-versa, porém se você quiser ir e voltar para o mesmo ponto que ficou, adicione um dia a mais de viagem e 20% a mais de custo.
Depois do café da manhã na fronteira seguimos para entrar no parque e já tive a primeira experiência de como país funciona. Fui a uma lanchonete do lado do posto de entrada no parque, comprei uma água e pedi para a tia para poder usar o banheiro. Ela me falou que para usar o banheiro eu teria que pagar (na Bolívia sempre há que se pagar por todo e qualquer banheiro), porém não seria possível porque ele estava congelado (a Bolívia é fria para dedéu!!!!). Meu dia já começou bem. Acabei me resolvendo no banheiro “ao natural” nas paredes do posto de fronteira, outra coisa que aprenderia que se faz bastante na Bolívia.
Lago congelado
Outra dica que dou é deixar tudo sempre bem arrumadinho dentro da mochila para que você necessite retirar o menos possível de coisas de lá quando estiver no passeio. Nas alturas você fica meio lesado e tonto e pode acabar esquecendo coisas que tirou da mochila. Portanto, tente mexer nela o mínimo possível para evitar isso.
Enquanto eu sofria com o frio e a altitude, nosso amigo aí ia de bicicleta. Esse sim é macho!
Assim que começamos o passeio já fomos sentindo que ele não seria algo tão fácil. Para começo de conversa, nos primeiros dias você nunca fica abaixo de 4.000 metros de altitude em um frio de doer os ossos. Vesti todas as minhas roupas e ainda assim tremia mais que vara de bambu verde.
Laguna Colorada de cor rosa. Ao fundo os flamingos que Deus sabe como conseguem viver nesse lugar
Logo no começo de nossa viagem, paramos em um lugar com piscinas termais. Cara, não importa se você tem roupas de banho ou não, toalhas ou não, a resposta é sempre: “- Sim, eu vou pular na água”. Na primeira noite dorme-se no lugar mais tosco possível, mais frio, mais alto e onde não há chuveiro quente. Logo, ou você é muito macho para tomar banho em um chuveiro ou a piscina termal vai ser o seu único banho no dia.
No primeiro dia foi onde mais sofremos, fomos muito alto, a até 5.000 metros de altura avistar uns gêiseres. Confesso que achei que ia passar mais mal do que imaginava, mas até levei na boa. Lógico, tive que resistir a tentação de não comer muito, apesar da comida saborosa que os guias prepararam para a gente. Realmente não foi fácil, mas fiquei bebendo muita água e a noite era cerveja com mais água ainda. Deu certo. Senti só um pouco de tontura e um pouquinho de dor-de-cabeça, mas nada que pudesse me causar muito mal-estar. Na verdade, na verdade, o único problema mesmo foi dormir.
Esse lugar eles chamam de “Vale do Dalí” porque tem um visual parecido com os quadros que ele pintava. Achei que faz um pouco de sentido…
Quando chegamos, a hospedaria era um lugar bem simples e sem aquecedor. A 4.300 metros de altura. Do lado de fora fazia -10º graus. Ventando. Botaram-me medo, muito medo sobre o frio. Fizeram-me alugar um saco de dormir por causa disso. No final não consegui dormir direito não foi nem por causa do frio, mas mais mesmo porque fico agoniado dormindo dentro de saco de dormir. Teve uma hora a noite que eu acordei e tinha me mexido tanto que todos lençóis haviam caído no chão e eu tava só com saco de dormir na altura das pernas e sem sentir frio. Só quando larguei de mão do saco de dormir, conseguir pegar no sono direito. Às vezes eu também acordava no meio da noite com falta de ar, mas isso foram duas vezes.
Hospedaria
Local onde dormimos
No outro dia de manhã após essa dormida no hotel friorento, o guia ainda chamou a galera de manhã para ir ver o nascer do sol no frio negativo do lado de fora. Hora de separar os homens dos meninos. Eu fui menino.
Descendo no aeroporto de Calama, peguei uma van em direção a cidade de San Pedro de Atacama. Seria a porta de entrada para o Atacama e posteriormente para o passeio do Salar de Uyuni
Descendo no aeroporto de Calama, peguei uma van em direção a cidade de San Pedro de Atacama. Seria a porta de entrada para o Atacama e posteriormente para o passeio do Salar de Uyuni
P.s: Na foto, montanhas bolivianas a caminho do Salar de Uyuni. Na frente, o outro Jipe que íamos acompanhando
No outro dia acordei quase de madrugada e fui de camionete para o passeio do Salar de Uyuni. Apesar de todos chamarem desse jeito, o Salar de Uyuni é só uma das dezenas de atrações e paisagens que vemos pelas montanhas da Bolívia sendo o ponto final.No caminho para atravessar a fronteira, conheci uma brasileira que estava simplesmente desesperada. A amiga havia esquecido o passaporte na fronteira da Bolívia e aquilo tinha um potencial gigantesco para dar problema a elas caso fosse perdido. Por sorte quando chegamos a fronteira os guardas bolivianos haviam guardado o passaporte e entregaram de volta. Sem antes, lógico, não cobrarem uma “multa” de 150 reais relativo a “esquecimento de passaporte na fronteira” que obviamente foi inventada ali na hora e direto para o bolso deles. Logo no primeiro lugar que eu pisei na Bolívia já dava para começar a perceber como era que o país funcionava. No posto de fronteira já descemos para tomar o café da manhã em um sol de rachar e um frio de doer as canelas. Estranho isso, sol com frio. Rapaz, e quando batia o vento então… Fomos divididos e eu acabei ficando com um casal de chilenos e o guia Jonnhy, boliviano e gente boa demais. Ele era engraçado. Não podia a gente parar o carro que ele se enfiava debaixo. Eu olhava aquilo e ficava torcendo para que fosse um costume boliviano e não o fato do carro estar quebrando. Não era quebrado não, ele simplesmente gostava de ficar deitado embaixo. Vai saber…
Os dois guias embaixo do carro mascando folhas de coca enquanto a gente batia algumas fotos
Uma curiosidade que ele me falou é que para ser motorista dentro do Parque você tem que ser boliviano. Achei engraçada essa reserva de mercado.
Às vezes a fauna local vem bem próxima da gente. Essa aqui, que mais parece uma raposa, chegou a quase encostar no nosso carro. Contribuiu que o casal de chilenos começou, sendo extremamente encorajados pelo Guia, a jogar bolachas de chocolate para ela. Quando eu era criança meus pais sempre brigavam comigo quando eu dava bolacha para os cachorros lá de casa dizendo que eles iam passar mal. Sei lá, raposa das montanhas não deve ter esse problema, afinal o guia dizia que eles davam tanta bolacha de chocolate que elas acostumaram e bastava avistarem um Jipe que já corriam para perto esperando ganhar bolachas. Tão vivas até hoje.
São Luís é uma cidade úmida, ao nível do mar e quente. O trajeto pelas montanhas desérticas entre Chile e Bolívia seria por um ambiente seco, alto e com frio negativo. Ou seja, um totalmente contrário ao que eu havia crescido.
– Cara, você precisa tomar alguns cuidados pois vai a um pouco mais de 5.000 metros de altitude. Sugiro você comprar aspirinas para afinar seu sangue e diminuir sua dor-de-cabeça. Além disso, um dos principais problemas quando estais a alta altitude é que você fica meio lesado e pode esquecer de beber água ou urinar e isso só vai piorar o seu mal-estar. Sugiro também você comprar diuréticos para urinar – o cara da agência me falava.
Beleza, fui a farmácia e comprei um pacote de aspirinas (que no final não usei) e pedi esse tal desse diurético.
– Qual diurético você quer, senhor?
– Eeer… me vê o mais barato.
– Então, diurético só com receita.
Voltei ao albergue e falei com a menina que trabalhava lá, paulistana por sinal, que precisava de um diurético e ela me indicou um farmacêutico que teoricamente vendia sem receita.
Fui lá.
– Senhor, preciso de diurético pois vou para as montanhas amanhã.
– Qual você quer?
– O mais barato.
– Diurético só com receita, senhor.
– Mas então… não tem como a gente dar um jeito? Realmente preciso de um diurético para ir para as montanhas amanhã.
Ele me olhou com aquela cara de “hummm, sei onde você quer chegar”
– Claro que sim, senhor, damos um jeito, porém você terá que pagar o dobro do preço a custas de “taxa de boa vontade”.
Pombas, o cara tava querendo se aproveitar do meu desespero, mas dei um jeito.
Chegando ao albergue a menina veio falar comigo:
– E aí, conseguiu comprar o diurético sem receita?
– Sim, dei meu jeito.
– Que legal, qual diurético você comprou?
– Uma caixa de cerveja chilena.
Mijei a noite inteira nas montanhas.
Depois de Santiago peguei um voo para Calama. Quando desci peguei um transporte por terra direto do aeroporto para San Pedro de Atacama, cidade chilena porta de entrada para o deserto do Atacama e também para o passeio do Salar de Uyuni Boliviano. Já quando você está no desembarque do aeroporto, vem uma galera oferecer transporte terrestre para San Pedro do Atacama, o que, depois analisando, tem um preço que compensa. Logo na saída há um verdadeiro mar de pick-ups no estacionamento que em sua maioria são alugadas pelas empresas de mineração, já que são 4X4, robustas e aguentam o pancadão de andar no meio do deserto. Elas são vermelhas para, em caso de algum problema, serem mais facilmente avistáveis. Também servem alguns turistas que desejam se aventurar pelo deserto.
Caminho de Calama a San Pedro de Atacama com suas retas infinitas no deserto e as pás de energia eólica no melhor estilo Top GearPickups para aluguel
No caminho vários memoriaisQuando ainda estava em San Pedro de Atacama, o céu resolve nos brindar com esse pôr-do-sol maravilhoso
San Pedro do Atacama é uma cidadezinha pequena e é como Bonito no Rio Grande do Sul (veja o post sobre Bonito aqui), vive nitidamente apenas para o turismo. Para onde você olha é agência de turismo, restaurantes, baladas, hotéis e albergues para acomodar a galera que quer se aventurar no Atacama ou seguir para Uyuni na Bolívia. Outra coisa engraçada que logo descobri é que tem tanto, mas TANTO brasileiro viajando por lá que um guia me falou que eles tão quase para mudar o nome da cidade para “São Paulo do Atacama”. Inclusive cheguei a conhecer alguns brasileiros que moravam lá pela cidade mesmo. Arrumaram um emprego e me disseram gostar de viver por lá devido a tranquilidade do lugar. Não consegui conversar muito com eles, pois eles pareciam meio arredios, não me davam muito papo e realmente pareciam não querer conversar comigo. Acho que é tanto brasileiro por lá, fazendo tantas vezes a mesma pergunta “como é morar aqui em San Pedro” que os caras acabam por encher o saco.
Inclusive conheci um filha da puta lá que me colocou maior medo sobre as montanhas bolivianas. Disse-me que fazia um frio de matar qualquer um. Quando eu disse que só tinha um sobretudo, um agasalho, uma calça e algumas meias, ele só faltou dizer que eu ia morrer congelado por lá. Gastei uma grana na cidade comprando meias, calças, gorros, luvas com preços extorsivos. No final nem precisei usar. Comprei tudo só por causa do medo que aquele filho da puta me colocou.
Igrejinha no centro de San Pedro de Atacama
No albergue em que eu estava conheci um ítalo-brasileiro que tinha acabado de chegar do passeio de Uyuni e tava encantado. Falou-me mil maravilhas da agência com que ele tinha contratado o passeio e me sugeriu de eu ir com eles, mas que iria pagar caro. Para quem quiser saber qual foi a agência, é só ir no site deles (http://www.sanpedrodeatacama.net/), sugiro demais contratar com eles. Lembrei dos nordestinos que conheci em Santiago (post passado que você pode conferir aqui) e não pensei duas vezes. O passeio seria por um ambiente alto, seco e com frio negativo. Nasci em uma cidade quente, úmida e ao nível do mar, tudo o que eu não queria era arriscar em um ambiente hostil como aquele.
Além disso, escutei relatos de se você pagar barato corre o risco de pegar um motorista bêbado, louco ou sacana. Ou os três juntos. Ou, pior, acontecer como o ocorrido com uma amiga de um brother nosso que estava viajando no meio do Salar quando do nada o motorista pergunta se alguém tinha uma bússola. Com a negativa de todos, após duas horas rodando, o motorista começou a chorar dizendo que estava perdido e que não podia morrer porque tinha mulher e filhos para sustentar. Assim, nessa sutileza. Cara, se o motorista que é a base da sua confiança em um deserto começa a chorar, você faz o que? Pois é, paguei caro para tentar evitar esse risco.
Paguei 100.000 pesos chilenos (uns 550 reais) pelo passeio, com todas refeições inclusas, alojamento e aluguel de um saco de dormir. Depois acabei descobrindo que nem paguei tão mais caro que a galera que contratava por San Pedro de Atacama mesmo. Acabou que casou certinho, cheguei em uma tarde a San Pedro de Atacama e no outro dia de manhã já estava partindo para as montanhas bolivianas. Tive até sorte, pois quando cheguei a San Pedro de Atacama era feriado no Chile, a cidade tava tão cheia que até água chegou a faltar e tava difícil conseguir vagas nos passeios.
Atacama
San Pedro tem vários passeios que você pode fazer, até cheguei a fazer um conhecido como Vale da Lua devido a semelhança do terreno com o lunar. Achei legalzinho, mas acho que realmente não compensa fazer pois as paisagens que vimos no passeio do Salar de Uyuni eram muito mais interessantes. Todos os outros passeios que também haviam por lá, geysers, piscinas termais, passeios pelo deserto, pareciam bem mais ou menos e bem mais caros do que os que eu vi no passeio do Salar de Uyuni. Então, minha sugestão é, se vai para Uyuni e está com o tempo apertado, não gaste seu tempo fazendo esses passeios de San Pedro, vale muito mais a pena aproveitar a vida noturna da cidade, o que eu não tive oportunidade.
De início o planejamento da minha viagem passava por Bolívia e Peru e não pelo Chile. Tinha como principal objetivo visitar o Salar de Uyuni na Bolívia, Machu Picchu no Peru e o que mais desse tempo para fazer. Porém, fazendo as simulações de passagem vi que seria mais barato descer em Santiago e depois voltar por Lima do que descer em La Paz conforme eu estava planejando. Seria até mais fácil fazer o Salar se começasse pelo Chile e depois ficasse direto na Bolívia, portanto, minha viagem acabou incluindo o Chile de última hora e ficou assim: Brasília – Santiago de avião; Santiago – Calama (Chile) de avião; Calama – Cusco (Peru) – por terra; Cusco – Lima de avião e Lima – Brasília de avião. Ficou um trajeto legal e sugiro que quem queira visitar os três países faça o mesmo.
SANTIAGO E BOLÍVIA ALERT
O Chile durante algum tempo ficou nas manchetes jornalísticas devido a prisão do ex-ditador chileno Augusto Pinochet, que foi o responsável por uma das ditaduras mais sanguinárias da América do Sul junto com a Argentina. Apesar de ter sido um carniceiro, há chilenos que apoiam Pinochet pelas reformas liberais que, segundo o que muitos defendem, foram as responsáveis pelo Chile hoje ser o país mais desenvolvido da América Latina. Além de Pinochet todo mundo lembra do Chile por causa dos mineiros que ficaram soterrados ou por eles terem ganho a Copa América de 2015. É uma pena, porque o Chile para mim é sinônimo do meu poeta latino favorito, Pablo Neruda. Segue um dos meus poemas preferidos:
Amor, quantos caminhos para chegar a um beijo, que solidão errante até chegar a ti! Os comboios continuam vazios rolando com a chuva. Em Taltal a primavera não amanheceu ainda. Mas tu e eu, meu amor, estamos juntos, juntos da roupa às raízes, juntos pelo outono, pela água, pelas ancas, até sermos apenas tu e eu juntos. Pensar que custou tantas pedras que o rio arrasta, a embocadura da água do Boroa, pensar que separados por comboios e nações. Tu e eu devíamos simplesmente amar-nos, com todos confundidos, com homens e mulheres, com a terra que implanta e educa os cravos.
Porém, se tem um país que realmente não se esquece de se lembrar do Chile é a Bolívia. Os dois países entraram em guerra há uns 150 anos atrás devido uma região riquíssima em cobre e outros minerais. A peleja foi a pior coisa que ocorreu para Bolívia que perdeu o acesso ao mar e até hoje culpa o Chile por seu subdesenvolvimento (a Bolívia é o país mais pobre da América do Sul). Sair do Chile e entrar na Bolívia, como eu fiz, é quase que sair do céu para o inferno e será descrito posteriormente.
Desci direto em Santiago e fiquei uma noite na casa de uma grande amiga que durante muito tempo foi membra do Couchsurfing Brasília, hoje casou com um chileno e tem um filhinho. Cheguei à casa dela e ela já estava hospedando dois outros couchsurfers nordestinos. Conversando com esses caras me veio o primeiro choque do que seria a minha viagem pela Bolívia. Eles não gostaram da Bolívia. E DETESTARAM os bolivianos, que eles só chamavam de mau-caráter. Disse que tudo eles tentavam enganar e que ficasse de olho nos pacotes turísticos que eles iriam me vender, principalmente os ônibus, porque eles te vendiam a passagem em um ônibus que na foto era uma beleza. Tinha calefação, cadeira-cama, mas quando você chegava era um caindo aos pedaços, que só comprasse as passagens momentos antes de subir no ônibus sob pena de ser enganado. Quiseram economizar na empresa onde compraram o passeio para o Salar de Uyuni e foi a pior coisa que puderam fazer, pois o motorista era um babaca e a comida que lhes foi oferecida era quase que inexistente.
Criançada pirando no teatrinho de rua no centro de Santiago
No final acabei por perceber que o que eles diziam não era tanto assim. Tanto assim. Porque sim, de todos os povos da América Latina que já pude presenciar, os bolivianos foram, de longe, as piores experiências. Realmente os mais safados e, pior, os menos amigáveis de todos os latinos (Cuba também é um país pobre e também se aplicam golpes como é possível ver nesse post aqui, porém era um povo muito amigável. Os bolivianos parecem não gostar de estrangeiros). Porém, no final, não achei algo tão alarmante como eles me falaram. Talvez porque quando me falam de um lugar com gente safada, penso logo na Índia, lugar onde há mais filhas da puta por metro quadrado neste planeta, e que, sim é bem pior que a Bolívia. Conversei pouco com os nordestinos que estavam hospedados lá, mas foi de grande valia pelo alerta relativo aos bolivianos.
Saí para dar um passeio com a Camila por Santiago. A cidade em si não tem muita coisa para se ver. Ela é boa devido aos restaurantes e cafés. Sentar e ficar curtindo o dia passar. É legal porque atrás de Santiago há uma bela visão dos picos nevados dos Andes (Os Andes são ótimos para evitar que os argentinos venham para cá – dizia Rodrigo, o marido chileno da Camila demonstrando que todo mundo gosta dos hermanos), muito parecidos com Santa Bárbara na Califórnia (relatos sobre Santa Bárbara nos Estados Unidos aqui).
No Chile é assim, os caras entram de greve, tomam o guindaste de assalto e ainda içam o carro da empresa. Tudo isso no meio do centro de Santiago. Legal, né?
Depois de algum tempo caminhando, começou a bater uma fome, mas não tive coragem de comer o ceviche (peixe cru) que a galera vendia no meio da rua, de forma que Camila me levou a um mercado para podermos comer alguma coisa. Algo me chamou atenção. Alguns pratos diziam “carne a la pobre”, “frango a la pobre”. Você olha alguma coisa a “la pobre” e imagina o que? Imagina que vem um pratinho de nada. Rapaz, “a la pobre” que dizer que o prato vai vir com aquela montanha de comida, seria um “a la pedreiro” no Brasil, mais ou menos como a foto abaixo:
Já fica a dica.
Outra curiosidade do Chile é que os bombeiros lá não são profissionais como no Brasil. Sim, os bombeiros são uma atividade voluntária, vivem de doações e vez ou outra fazem vaquinhas para poder comprar carros e equipamentos. Doido isso, né?